"É preciso ter vários métodos para alfabetizar”, afirma especialista
Aos 84 anos, Magda Becker Soares, maior
referência brasileira sobre alfabetização, destrincha vários aspectos do
tema em seu mais recente livro
Em 2009, ao identificar a carência de
materiais em formato de revista para formadores de alfabetizadores, fui a
Belo Horizonte propor à professora Magda Becker Soares, a quem já havia
entrevistado algumas vezes, que coordenasse dois números especiais
sobre o tema para a revista Educação.
Depois de uma reunião de uma hora e meia com
docentes do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), da
Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, órgão
criado por ela, havíamos discutido, desenhado, dividido em capítulos e
listado autores para os dois números. Magda, então, foi a voz que
enfatizou a importância da parceria entre Ceale, que faria 25 anos em
2010, e Editora Segmento. Depois disso
passou a bola para as professoras Aparecida Paiva e Sara Mourão darem continuidade ao projeto por parte do Ceale.
Ela própria, ainda que tenha participado com
um artigo, estava com a mente voltada a um projeto que iria ocupá-la a
partir de 2011: a escrita de um livro que mergulhasse em toda sua
trajetória intelectual relativa ao entendimento da faceta linguística na
inserção do mundo da escrita. Traduza-se por isso o processo de
alfabetização, objeto de aprendizagem a que dedicou a vida, desde antes
de formar-se em letras neolatinas pela mesma UFMG, em 1954.
Ainda que sua visão sobre a entrada no mundo
letrado seja bem mais ampla do que a questão específica da alfabetização
– Magda é a introdutora no Brasil do conceito de literacy,
o letramento – o tema, em razão do renitente insucesso da educação
pública brasileira, remanesceu quase como que uma obsessão para ela.
Por intuir que era muito mais complexo do que
a forma como era tratado na formação de professores, em especial na
pedagogia, continuou a tentar desvendar suas diversas nuances. Para
escrever o livro, batizado de Alfabetização – A questão dos Métodos (Editora
Contexto), mergulhou no talvez mais rico conjunto de referências de
pesquisa, percorrendo todas as áreas nele envolvidas, dando atenção ao
objeto e ao sujeito da aprendizagem, como enfatiza. Mas ainda deixando
em aberto as outras duas facetas relativas ao mundo letrado, a
interativa e a sociocultural.
Quem sabe, objeto de uma nova obra com a
assinatura desta intelectual cuja marca principal parece ser a
generosidade. E que continua mais ativa do que nunca aos 84 anos. Numa
tarde agradável no início de agosto, ela nos recebeu em sua casa, em
Belo Horizonte.
Como nasceu sua preocupação com a questão da alfabetização?
Durante toda a educação básica – primário,
ginásio e científico (queria ir para a área de ciências exatas), estudei
em escola privada, protestante, metodista. Depois fiz curso de letras e
fui dar aula em escola pública, para o ginásio. Levei um susto
terrível. Senti na pele a distância que havia entre a escola em que eu
tinha estudado e onde dava aulas agora, a diferença de condições,
professores, sobretudo de relação dos professores com os alunos. Esse momento representou um rito de passagem na minha vida. Daí em diante, passei a vida por conta da escola pública.
Deixei o ensino básico e fui para a
universidade, com dedicação exclusiva, o que às vezes é mais um
malefício do que um benefício para quem está formando professores. Você
forma professores para uma escola da qual está distante, que conhece só
pela pesquisa. Mas fiz e orientei pesquisas sobre a língua, sobre
problemas de linguagem na escola pública. E fui me convencendo cada vez
mais que a questão era o começo da história, a fase de entrada da
criança no que podemos chamar de cultura da escrita. E acabei me
voltando para essa área inicial.
Quando foi isso?
Comecei a dar aulas um ano antes de me
formar, em 1953, dava aulas para ginásio ou em formação de professoras
do curso normal. Só fui entrar na universidade em 1960. Fiquei até me
aposentar, na véspera de fazer 70 anos. A moça da secretaria me disse
que eu já poderia ter me aposentado dez anos antes. Eu disse: “quem
falou que eu queria?”.
Nesse período todo, fiquei preocupada com a
questão da aprendizagem da língua escrita pelas crianças. Inicialmente,
trabalhava só com o curso de letras, depois quis trabalhar também com
pedagogia, na disciplina de alfabetização, que conseguimos introduzir.
Antes dela, havia na pedagogia uma metodologia da língua portuguesa, um
semestre só. Assim, ficamos mais perto de quem ia para a sala de aula na
escola pública. Aí veio um interesse grande em alfabetização. Esse
livro de agora é resultado disso.
Como sempre fui muito obsessiva por leitura, por estudar, estava sempre a par do que se produzia aqui e no exterior. Ao mesmo tempo, acompanhava o fracasso na alfabetização neste país, que é algo que não se vence nunca. Comecei a ficar impressionada.
É consenso que o professor de qualquer
disciplina tem de saber o conteúdo para poder ensiná-lo. Tem de saber
história para ensinar história, tem de saber geografia para ensinar
geografia, ciências para ensinar ciências. Para alfabetizar, é como se
não houvesse algo que se tem de saber. É como se a pessoa, sabendo ler e escrever, soubesse automaticamente alfabetizar. O que não faz sentido.
Na minha visão de linguista, pensava que a
língua escrita é um sistema de representação extremamente complexo e que
demanda de uma criança de 5, 6, 7, 8 anos habilidades cognitivas muito
complexas também, pois trata do entendimento de um sistema de
representação bastante abstrato. É preciso representar os sons com
sinaizinhos na página, os chamados grafemas, sinais que são também
arbitrários. Por que um desenho de B vai representar o fonema |B|? Ou
seja, o objeto em si é complicado. E, portanto, as habilidades
cognitivas que a criança precisa para compreender e dominar esse sistema
são também complexas e dependem do processo de desenvolvimento dela.
Veja o artigo completo aqui...
"É preciso ter vários métodos para alfabetizar”, afirma especialista
Aos 84 anos, Magda Becker Soares, maior
referência brasileira sobre alfabetização, destrincha vários aspectos do
tema em seu mais recente livro
Em 2009, ao identificar a carência de
materiais em formato de revista para formadores de alfabetizadores, fui a
Belo Horizonte propor à professora Magda Becker Soares, a quem já havia
entrevistado algumas vezes, que coordenasse dois números especiais
sobre o tema para a revista Educação.
Depois de uma reunião de uma hora e meia com
docentes do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), da
Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, órgão
criado por ela, havíamos discutido, desenhado, dividido em capítulos e
listado autores para os dois números. Magda, então, foi a voz que
enfatizou a importância da parceria entre Ceale, que faria 25 anos em
2010, e Editora Segmento. Depois disso
passou a bola para as professoras Aparecida Paiva e Sara Mourão darem continuidade ao projeto por parte do Ceale.
Ela própria, ainda que tenha participado com
um artigo, estava com a mente voltada a um projeto que iria ocupá-la a
partir de 2011: a escrita de um livro que mergulhasse em toda sua
trajetória intelectual relativa ao entendimento da faceta linguística na
inserção do mundo da escrita. Traduza-se por isso o processo de
alfabetização, objeto de aprendizagem a que dedicou a vida, desde antes
de formar-se em letras neolatinas pela mesma UFMG, em 1954.
Ainda que sua visão sobre a entrada no mundo
letrado seja bem mais ampla do que a questão específica da alfabetização
– Magda é a introdutora no Brasil do conceito de literacy,
o letramento – o tema, em razão do renitente insucesso da educação
pública brasileira, remanesceu quase como que uma obsessão para ela.
Por intuir que era muito mais complexo do que
a forma como era tratado na formação de professores, em especial na
pedagogia, continuou a tentar desvendar suas diversas nuances. Para
escrever o livro, batizado de Alfabetização – A questão dos Métodos (Editora
Contexto), mergulhou no talvez mais rico conjunto de referências de
pesquisa, percorrendo todas as áreas nele envolvidas, dando atenção ao
objeto e ao sujeito da aprendizagem, como enfatiza. Mas ainda deixando
em aberto as outras duas facetas relativas ao mundo letrado, a
interativa e a sociocultural.
Quem sabe, objeto de uma nova obra com a
assinatura desta intelectual cuja marca principal parece ser a
generosidade. E que continua mais ativa do que nunca aos 84 anos. Numa
tarde agradável no início de agosto, ela nos recebeu em sua casa, em
Belo Horizonte.
Como nasceu sua preocupação com a questão da alfabetização?
Durante toda a educação básica – primário,
ginásio e científico (queria ir para a área de ciências exatas), estudei
em escola privada, protestante, metodista. Depois fiz curso de letras e
fui dar aula em escola pública, para o ginásio. Levei um susto
terrível. Senti na pele a distância que havia entre a escola em que eu
tinha estudado e onde dava aulas agora, a diferença de condições,
professores, sobretudo de relação dos professores com os alunos. Esse momento representou um rito de passagem na minha vida. Daí em diante, passei a vida por conta da escola pública.
Deixei o ensino básico e fui para a
universidade, com dedicação exclusiva, o que às vezes é mais um
malefício do que um benefício para quem está formando professores. Você
forma professores para uma escola da qual está distante, que conhece só
pela pesquisa. Mas fiz e orientei pesquisas sobre a língua, sobre
problemas de linguagem na escola pública. E fui me convencendo cada vez
mais que a questão era o começo da história, a fase de entrada da
criança no que podemos chamar de cultura da escrita. E acabei me
voltando para essa área inicial.
Quando foi isso?
Comecei a dar aulas um ano antes de me
formar, em 1953, dava aulas para ginásio ou em formação de professoras
do curso normal. Só fui entrar na universidade em 1960. Fiquei até me
aposentar, na véspera de fazer 70 anos. A moça da secretaria me disse
que eu já poderia ter me aposentado dez anos antes. Eu disse: “quem
falou que eu queria?”.
Nesse período todo, fiquei preocupada com a
questão da aprendizagem da língua escrita pelas crianças. Inicialmente,
trabalhava só com o curso de letras, depois quis trabalhar também com
pedagogia, na disciplina de alfabetização, que conseguimos introduzir.
Antes dela, havia na pedagogia uma metodologia da língua portuguesa, um
semestre só. Assim, ficamos mais perto de quem ia para a sala de aula na
escola pública. Aí veio um interesse grande em alfabetização. Esse
livro de agora é resultado disso.
Como sempre fui muito obsessiva por leitura, por estudar, estava sempre a par do que se produzia aqui e no exterior. Ao mesmo tempo, acompanhava o fracasso na alfabetização neste país, que é algo que não se vence nunca. Comecei a ficar impressionada.
É consenso que o professor de qualquer
disciplina tem de saber o conteúdo para poder ensiná-lo. Tem de saber
história para ensinar história, tem de saber geografia para ensinar
geografia, ciências para ensinar ciências. Para alfabetizar, é como se
não houvesse algo que se tem de saber. É como se a pessoa, sabendo ler e escrever, soubesse automaticamente alfabetizar. O que não faz sentido.
Na minha visão de linguista, pensava que a
língua escrita é um sistema de representação extremamente complexo e que
demanda de uma criança de 5, 6, 7, 8 anos habilidades cognitivas muito
complexas também, pois trata do entendimento de um sistema de
representação bastante abstrato. É preciso representar os sons com
sinaizinhos na página, os chamados grafemas, sinais que são também
arbitrários. Por que um desenho de B vai representar o fonema |B|? Ou
seja, o objeto em si é complicado. E, portanto, as habilidades
cognitivas que a criança precisa para compreender e dominar esse sistema
são também complexas e dependem do processo de desenvolvimento dela.
Veja o artigo completo aqui...

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