Se você fosse negra...


Isso aconteceu há muito tempo. Eu cursava Letras na UFAL, aqui em Maceió, e era bolsista de uma organização semelhante ao CNPQ, a CAPES.

Lembro que éramos um grupo de 12 alunos. Houve um episódio que me deixou muito triste. Teríamos que viajar a Florianópolis – SC, para apresentarmos nossas pesquisas na área da Linguística, da Literatura etc. por uma semana. Eu estava superanimada. O órgão provedor de nossas bolsas havia providenciado passagens de ônibus pra todo mundo. Eu sei que ia ser uma viagem longa e cansativa, mas a gente era jovem, tudo era lucro.

Umas duas semanas antes de o evento acontecer, porém, recebemos a notícia de que somente quatro componentes iriam... E de avião! Houve uma “conspiração” para que todas as 12 passagens de ônibus fossem convertidas em 4 de avião. Não sei quais os critérios que foram utilizados para a escolha dos privilegiados, mas sei uma das razões pelas quais fui descartada: por ser deficiente, eles disseram que eu teria dificuldades de locomoção.

Enfim, eu fiquei arrasada.

Eu não sabia a quem recorrer, parecia que todo mundo achava justa essa “triagem”. Então tive que me recolher à minha insignificância, engolir o nó na garganta e me conformar.

Nessa época, eu tinha um professor-orientador à minha disposição, por causa do meu projeto de pesquisa, prof. Vicente de Ataíde. Apesar do seu doutorado, esse professor era uma figura: irreverente, debochado, fora dos padrões mesmo! Eu adorava trabalhar com ele e aprendi demais com a sua orientação.

Daí, num dos nossos encontros acadêmicos, eu me queixei a ele da injustiça sofrida, da exclusão e tal. Para a minha surpresa, em vez de ele se indignar e me consolar, abriu a boca e disse, sem cerimônia:

- Minha filha, você foi excluída desse evento não apenas porque é aleijada. Você foi excluída, porque é aleijada, é mulher, é pobre e, se fosse negra, você estava era lascada!

Eu ainda estremeço, quando me lembro dessa terrível declaração. Isso faz quase 30 anos e, para a minha tristeza, percebo que não mudou muita coisa com relação a isso no mundo.

Hoje existem leis que condenam o preconceito racial, e existe até um dia oficial para comemorar a “consciência negra”! Mas quer saber? O pior preconceito é o velado, o disfarçado.

Nunca se excluiu tanto pessoas pela cor, pela orientação sexual, pela dificuldade motora ou por qualquer outro detalhe que esteja fora do “padrão ideal”, como agora, a despeito das leis e das cotas!

Infelizmente, com toda a ideia de igualdade proclamada, ostensivamente, pela mídia e pela sociedade, numa mesma empresa homens ainda ganham mais do que mulheres, desempenhando a mesmíssima função.

E quantas vezes uma pessoa portadora de deficiência já não foi contratada apenas pelos benefícios fiscais ou pra ser o “bobo da corte”, contribuindo para que a cara da empresa parecesse mais humana e politicamente correta?

Quase 30 anos se passaram e eu ainda não pude refutar o deboche daquele meu professor.

Lídia Vasconcelos




Isso aconteceu há muito tempo. Eu cursava Letras na UFAL, aqui em Maceió, e era bolsista de uma organização semelhante ao CNPQ, a CAPES.

Lembro que éramos um grupo de 12 alunos. Houve um episódio que me deixou muito triste. Teríamos que viajar a Florianópolis – SC, para apresentarmos nossas pesquisas na área da Linguística, da Literatura etc. por uma semana. Eu estava superanimada. O órgão provedor de nossas bolsas havia providenciado passagens de ônibus pra todo mundo. Eu sei que ia ser uma viagem longa e cansativa, mas a gente era jovem, tudo era lucro.

Umas duas semanas antes de o evento acontecer, porém, recebemos a notícia de que somente quatro componentes iriam... E de avião! Houve uma “conspiração” para que todas as 12 passagens de ônibus fossem convertidas em 4 de avião. Não sei quais os critérios que foram utilizados para a escolha dos privilegiados, mas sei uma das razões pelas quais fui descartada: por ser deficiente, eles disseram que eu teria dificuldades de locomoção.

Enfim, eu fiquei arrasada.

Eu não sabia a quem recorrer, parecia que todo mundo achava justa essa “triagem”. Então tive que me recolher à minha insignificância, engolir o nó na garganta e me conformar.

Nessa época, eu tinha um professor-orientador à minha disposição, por causa do meu projeto de pesquisa, prof. Vicente de Ataíde. Apesar do seu doutorado, esse professor era uma figura: irreverente, debochado, fora dos padrões mesmo! Eu adorava trabalhar com ele e aprendi demais com a sua orientação.

Daí, num dos nossos encontros acadêmicos, eu me queixei a ele da injustiça sofrida, da exclusão e tal. Para a minha surpresa, em vez de ele se indignar e me consolar, abriu a boca e disse, sem cerimônia:

- Minha filha, você foi excluída desse evento não apenas porque é aleijada. Você foi excluída, porque é aleijada, é mulher, é pobre e, se fosse negra, você estava era lascada!

Eu ainda estremeço, quando me lembro dessa terrível declaração. Isso faz quase 30 anos e, para a minha tristeza, percebo que não mudou muita coisa com relação a isso no mundo.

Hoje existem leis que condenam o preconceito racial, e existe até um dia oficial para comemorar a “consciência negra”! Mas quer saber? O pior preconceito é o velado, o disfarçado.

Nunca se excluiu tanto pessoas pela cor, pela orientação sexual, pela dificuldade motora ou por qualquer outro detalhe que esteja fora do “padrão ideal”, como agora, a despeito das leis e das cotas!

Infelizmente, com toda a ideia de igualdade proclamada, ostensivamente, pela mídia e pela sociedade, numa mesma empresa homens ainda ganham mais do que mulheres, desempenhando a mesmíssima função.

E quantas vezes uma pessoa portadora de deficiência já não foi contratada apenas pelos benefícios fiscais ou pra ser o “bobo da corte”, contribuindo para que a cara da empresa parecesse mais humana e politicamente correta?

Quase 30 anos se passaram e eu ainda não pude refutar o deboche daquele meu professor.

Lídia Vasconcelos




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